Seria uma galeria de artes visuais um espaço de branco? E perguntamos se seria desse branco que é um 'branco' que ao mesmo tempo dá o sentido ao pálido da pessoa e ao significado político da palavra.
A pergunta é necessária, pois esta exposição é uma homenagem, uma celebração à memória da luta de Dona Rosa Viveiros, ou Nochê Navanakoly, ou Mãe Doca, negra mulher e maranhense de Codó, que apenas três anos após a abolição da escravatura enfrentou o racismo, preconceitos da época e inaugurou seu Terreiro de Tambor de Mina na capital paraense. A partir dos 18 de março de 1891 ela foi presa várias vezes porque tocava tambores e cultuava as divindades africanas com as quais preservava as tradições de matriz afro-amazônica, e nem por isso desistiu de manter aberto o terreiro que dava lugar à manutenção das tradições de sua origem negra africana. A consciência negra foi o que motivou Mãe Doca a enfrentar os desmandos da polícia e o poder constituído em alicerces racistas e discriminatórios.
Aruanda é uma referência ao porto de São Paulo de Luanda, lugar de onde partiam os negros sequestrados e trazidos ao Brasil na condição de escravos, e a referência que ficou na memória coletiva como o lugar onde se encontraria novamente a liberdade que vinha com as lembranças do continente de origem. Luanda, Aluanda, Aruanda, o Tempo, que é divindade de Angola (do mesmo porto de Luanda), muda a palavra e muda também a semântica, e de uma referência geopolítica, Aruanda persiste hoje no imaginário afro-brasileiro como uma espécie de paraíso que habita cantigas de brincadeiras de roda, jogos de capoeira, rezas e cantos religiosos, as manifestações de cultura popular e outras situações em que os povos negros têm importância na construção da cosmologia do lugar e do seu povo.
”Nós de Aruanda – artistas de terreiro” dá título para a exposição e brinca com os sentidos que essa expressão pode ter: de quem, ou de quais nós, nós estamos falando, quem somos nós? Talvez o que queiramos seja nos debruçar sobre esses enlaces emaranhados desses nós que, ao fim, se traduz na busca por conhecer esse rico universo numa perspectiva diferenciada: a produção poética e os estudos universitários como ferramentas para conhecer, descobrir, divulgar e defender a riqueza das culturas tradicionais de matrizes africana e suas correlações com as muitas Áfricas que (re)inventamos no Brasil, com esta exposição também celebramos o 18 de março da primeira resistência à prisão, celebramos Mãe Doca e toda a resistência dos povos de terreiros no Pará.
Pode ser que agora, no século XXI, tanto a capital paraense quanto as artes visuais sejam sim um espaço legítimo de ocupação do 'negrume' amazônida, mas também é latente que, assim como os terreiros nos espaços públicos, ainda é invisível a produção artística paraense que coloque em evidência as questões sócio-culturais desse mesmo “ser afro-amazônico”.
O que apresentamos nesta coletiva são práticas artísticas do cotidiano das culturas da diáspora que recriam algumas dessas diversas Áfricas amazônicas, apontam para a pluralidade de entendimentos sobre a arte e que em comum trazem um forte viés emotivo baseado na coletividade, no cotidiano dos terreiros, nas lutas políticas por direitos de cidadania, na política afirmativa, nas práticas ritualísticas, na memória afetiva e na memória de vida como elementos essenciais para a construção de mundo que resulta na poética desses artistas, assim como para a compreensão teórica para a construção dos paradigmas estéticos afro-amazônicos - uma futura estética que tem a potência da estética diversificada e construída pela experiência plural negra e brasileira nesta região, e que indica vínculos a elementos socioculturais africanos e amazônidas.
Belém/PA, março de 2013.
Grupo de Estudos e Pesquisa Roda de Axé.
Serviço:
“Nós de Aruanda- Artistas de Terreiro”
Abertura da Exposição: dia 08 de Março das 19 às 22:00 horas.
Galeria Theodoro Braga – Centur.
Visitação: de 11 a 22 de março 2013.
14 de março, quinta - 16h sessão de cineclube;
das 17:30 as 19h performance musical de Mãe Rita ;
19h Roda de conversa com os artistas e pesquisadores envolvidos no projeto. Pauta: Processos criativos nas comunidades de terreiro.
(OBS, neste dia está prevista sessão solene pra povos de terreiro na ALEPA, previsto para as 9h da manhã).
Contatos:
Lideranças de Terreiro/artistas:
- Mametu Nangetu – 8806 73 51 / 32267599;
- Kátia Haadad – 88223937/82206238;
- Katia Jurema Sousa – 88840453;
- Ysa Mota – 83029044;
- Samanta Silva – 8056 72 63;
- Alex Leovan - 4009-3263 ou 8155-8366;
- Rodrigo Ethnos – 8265 12 69;
- Tata Kinambogi (Arthur Leandro)- 9933 30 77.
Pesquisadores/ coordenação:
- Hanavalona Falayola – 8168 62 52
- Isabela do Lago – 8310 48 38
- Hirley Muriel – 87187207;
Isabela do Lago
- Bela do Lago
- Belém, Pará - Amazônia, Brazil
- A natureza da coisa arte em minha trajetória ocupou lugar no que se diz opção profissional, nem sei dizer nada a respeito de vocação pois nunca ouvi o tal "chamado". Por toda a minha vida tenho cercado o ato de produzir imagens, sejam elas desenhadas, pintadas, fotografadas, filmadas, dançadas, cantadas ou aquelas que figuram mundos internos nas almas imersas em situações nada concretas, a realidade vem a partir da leitura de quem se presta ao ato existir. Intuição, paixão e o nada me tocam neste viver o sentimento criativo desde que sinto coisas que não vejo e procuro transformá-las em algo visível e para que isto aconteça vivencio a criação no momento dela - e depois a esqueço.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Nós de Aruanda - Artistas de Terreiro
fotografia de Samantha Silva & Tatyane Silva
Seria uma galeria de artes visuais um espaço de branco? E perguntamos se seria desse branco que é um 'branco' que ao mesmo tempo dá o sentido ao pálido da pessoa e ao significado político da palavra.
A pergunta é necessária, pois esta exposição é uma homenagem, uma celebração à memória da luta de Dona Rosa Viveiros, ou Nochê Navanakoly, ou Mãe Doca, negra mulher e maranhense de Codó, que apenas três anos após a abolição da escravatura enfrentou o racismo, preconceitos da época e inaugurou seu Terreiro de Tambor de Mina na capital paraense. A partir dos 18 de março de 1891 ela foi presa várias vezes porque tocava tambores e cultuava as divindades africanas com as quais preservava as tradições de matriz afro-amazônica, e nem por isso desistiu de manter aberto o terreiro que dava lugar à manutenção das tradições de sua origem negra africana. A consciência negra foi o que motivou Mãe Doca a enfrentar os desmandos da polícia e o poder constituído em alicerces racistas e discriminatórios.
Aruanda é uma referência ao porto de São Paulo de Luanda, lugar de onde partiam os negros sequestrados e trazidos ao Brasil na condição de escravos, e a referência que ficou na memória coletiva como o lugar onde se encontraria novamente a liberdade que vinha com as lembranças do continente de origem. Luanda, Aluanda, Aruanda, o Tempo, que é divindade de Angola (do mesmo porto de Luanda), muda a palavra e muda também a semântica, e de uma referência geopolítica, Aruanda persiste hoje no imaginário afro-brasileiro como uma espécie de paraíso que habita cantigas de brincadeiras de roda, jogos de capoeira, rezas e cantos religiosos, as manifestações de cultura popular e outras situações em que os povos negros têm importância na construção da cosmologia do lugar e do seu povo.
”Nós de Aruanda – artistas de terreiro” dá título para a exposição e brinca com os sentidos que essa expressão pode ter: de quem, ou de quais nós, nós estamos falando, quem somos nós? Talvez o que queiramos seja nos debruçar sobre esses enlaces emaranhados desses nós que, ao fim, se traduz na busca por conhecer esse rico universo numa perspectiva diferenciada: a produção poética e os estudos universitários como ferramentas para conhecer, descobrir, divulgar e defender a riqueza das culturas tradicionais de matrizes africana e suas correlações com as muitas Áfricas que (re)inventamos no Brasil, com esta exposição também celebramos o 18 de março da primeira resistência à prisão, celebramos Mãe Doca e toda a resistência dos povos de terreiros no Pará.
Pode ser que agora, no século XXI, tanto a capital paraense quanto as artes visuais sejam sim um espaço legítimo de ocupação do 'negrume' amazônida, mas também é latente que, assim como os terreiros nos espaços públicos, ainda é invisível a produção artística paraense que coloque em evidência as questões sócio-culturais desse mesmo “ser afro-amazônico”.
O que apresentamos nesta coletiva são práticas artísticas do cotidiano das culturas da diáspora que recriam algumas dessas diversas Áfricas amazônicas, apontam para a pluralidade de entendimentos sobre a arte e que em comum trazem um forte viés emotivo baseado na coletividade, no cotidiano dos terreiros, nas lutas políticas por direitos de cidadania, na política afirmativa, nas práticas ritualísticas, na memória afetiva e na memória de vida como elementos essenciais para a construção de mundo que resulta na poética desses artistas, assim como para a compreensão teórica para a construção dos paradigmas estéticos afro-amazônicos - uma futura estética que tem a potência da estética diversificada e construída pela experiência plural negra e brasileira nesta região, e que indica vínculos a elementos socioculturais africanos e amazônidas.
Belém/PA, março de 2013.
Grupo de Estudos e Pesquisa Roda de Axé.
Serviço:
“Nós de Aruanda- Artistas de Terreiro”
Abertura da Exposição: dia 08 de Março das 19 às 22:00 horas.
Galeria Theodoro Braga – Centur.
Visitação: de 11 a 22 de março 2013.
14 de março, quinta - 16h sessão de cineclube;
das 17:30 as 19h performance musical de Mãe Rita ;
19h Roda de conversa com os artistas e pesquisadores envolvidos no projeto. Pauta: Processos criativos nas comunidades de terreiro.
(OBS, neste dia está prevista sessão solene pra povos de terreiro na ALEPA, previsto para as 9h da manhã).
Contatos:
Lideranças de Terreiro/artistas:
- Mametu Nangetu – 8806 73 51 / 32267599;
- Kátia Haadad – 88223937/82206238;
- Katia Jurema Sousa – 88840453;
- Ysa Mota – 83029044;
- Samanta Silva – 8056 72 63;
- Alex Leovan - 4009-3263 ou 8155-8366;
- Rodrigo Ethnos – 8265 12 69;
- Tata Kinambogi (Arthur Leandro)- 9933 30 77.
Pesquisadores/ coordenação:
- Hanavalona Falayola – 8168 62 52
- Isabela do Lago – 8310 48 38
- Hirley Muriel – 87187207;
Seria uma galeria de artes visuais um espaço de branco? E perguntamos se seria desse branco que é um 'branco' que ao mesmo tempo dá o sentido ao pálido da pessoa e ao significado político da palavra.
A pergunta é necessária, pois esta exposição é uma homenagem, uma celebração à memória da luta de Dona Rosa Viveiros, ou Nochê Navanakoly, ou Mãe Doca, negra mulher e maranhense de Codó, que apenas três anos após a abolição da escravatura enfrentou o racismo, preconceitos da época e inaugurou seu Terreiro de Tambor de Mina na capital paraense. A partir dos 18 de março de 1891 ela foi presa várias vezes porque tocava tambores e cultuava as divindades africanas com as quais preservava as tradições de matriz afro-amazônica, e nem por isso desistiu de manter aberto o terreiro que dava lugar à manutenção das tradições de sua origem negra africana. A consciência negra foi o que motivou Mãe Doca a enfrentar os desmandos da polícia e o poder constituído em alicerces racistas e discriminatórios.
Aruanda é uma referência ao porto de São Paulo de Luanda, lugar de onde partiam os negros sequestrados e trazidos ao Brasil na condição de escravos, e a referência que ficou na memória coletiva como o lugar onde se encontraria novamente a liberdade que vinha com as lembranças do continente de origem. Luanda, Aluanda, Aruanda, o Tempo, que é divindade de Angola (do mesmo porto de Luanda), muda a palavra e muda também a semântica, e de uma referência geopolítica, Aruanda persiste hoje no imaginário afro-brasileiro como uma espécie de paraíso que habita cantigas de brincadeiras de roda, jogos de capoeira, rezas e cantos religiosos, as manifestações de cultura popular e outras situações em que os povos negros têm importância na construção da cosmologia do lugar e do seu povo.
”Nós de Aruanda – artistas de terreiro” dá título para a exposição e brinca com os sentidos que essa expressão pode ter: de quem, ou de quais nós, nós estamos falando, quem somos nós? Talvez o que queiramos seja nos debruçar sobre esses enlaces emaranhados desses nós que, ao fim, se traduz na busca por conhecer esse rico universo numa perspectiva diferenciada: a produção poética e os estudos universitários como ferramentas para conhecer, descobrir, divulgar e defender a riqueza das culturas tradicionais de matrizes africana e suas correlações com as muitas Áfricas que (re)inventamos no Brasil, com esta exposição também celebramos o 18 de março da primeira resistência à prisão, celebramos Mãe Doca e toda a resistência dos povos de terreiros no Pará.
Pode ser que agora, no século XXI, tanto a capital paraense quanto as artes visuais sejam sim um espaço legítimo de ocupação do 'negrume' amazônida, mas também é latente que, assim como os terreiros nos espaços públicos, ainda é invisível a produção artística paraense que coloque em evidência as questões sócio-culturais desse mesmo “ser afro-amazônico”.
O que apresentamos nesta coletiva são práticas artísticas do cotidiano das culturas da diáspora que recriam algumas dessas diversas Áfricas amazônicas, apontam para a pluralidade de entendimentos sobre a arte e que em comum trazem um forte viés emotivo baseado na coletividade, no cotidiano dos terreiros, nas lutas políticas por direitos de cidadania, na política afirmativa, nas práticas ritualísticas, na memória afetiva e na memória de vida como elementos essenciais para a construção de mundo que resulta na poética desses artistas, assim como para a compreensão teórica para a construção dos paradigmas estéticos afro-amazônicos - uma futura estética que tem a potência da estética diversificada e construída pela experiência plural negra e brasileira nesta região, e que indica vínculos a elementos socioculturais africanos e amazônidas.
Belém/PA, março de 2013.
Grupo de Estudos e Pesquisa Roda de Axé.
Serviço:
“Nós de Aruanda- Artistas de Terreiro”
Abertura da Exposição: dia 08 de Março das 19 às 22:00 horas.
Galeria Theodoro Braga – Centur.
Visitação: de 11 a 22 de março 2013.
14 de março, quinta - 16h sessão de cineclube;
das 17:30 as 19h performance musical de Mãe Rita ;
19h Roda de conversa com os artistas e pesquisadores envolvidos no projeto. Pauta: Processos criativos nas comunidades de terreiro.
(OBS, neste dia está prevista sessão solene pra povos de terreiro na ALEPA, previsto para as 9h da manhã).
Contatos:
Lideranças de Terreiro/artistas:
- Mametu Nangetu – 8806 73 51 / 32267599;
- Kátia Haadad – 88223937/82206238;
- Katia Jurema Sousa – 88840453;
- Ysa Mota – 83029044;
- Samanta Silva – 8056 72 63;
- Alex Leovan - 4009-3263 ou 8155-8366;
- Rodrigo Ethnos – 8265 12 69;
- Tata Kinambogi (Arthur Leandro)- 9933 30 77.
Pesquisadores/ coordenação:
- Hanavalona Falayola – 8168 62 52
- Isabela do Lago – 8310 48 38
- Hirley Muriel – 87187207;
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Os muitos nós de Aruanda
Certa vez um camarada artista me encontrou em Brasília e mostrou-se surpreso em me ver junto aos delegados e delegadas da setorial de artes visuais, eu não entendi muito bem o espanto dele... travamos um debate ali mesmo nos corredores.
Ora, se fosse alguém de outra cidade, vá lá, mas um camarada de Belém do Pará duvidar assim da minha artistagem? Tudo bem, não sou assim tão conhecida nesta terra, mas eu havia acabado de fazer um verdadeiro fuzuê na Galeria Theodoro Braga com a exposição “mulheres líquidas” e este dito camarada estava por lá que eu vi, então, qual foi o problema? Fiquei assim duvidosa até que ele me perguntou: “E o teu turbante?”
eu Disse: “Hã?” ele prosseguiu finalmente: “Tu não usas turbante por algum motivo especial? Eu achei que tu eras lá da setorial dos pretos porque tu andas sempre com aquelas senhoras de turbante, não te vi no meio dos artistas...”
Ora, o sangue ferveu por dentro dos meus córneos, então o turbante seria um artefato-dispositivo-definitivo-entrave da artistagem da pessoa?
Esse camarada tava querendo dizer que Mãe Beth e Mametu Nangetu senhoras pretas enturbantadas não poderiam ser artistas? Ou que na setorial dos pretos não tem artistas? Ou? Ou isto é mais um dos muitos nós de Aruanda a ser desatado? (e o cara continuou falando coisas que já eu não ouvia enquanto essas questões queimavam dentro de mim, mas eu olhava pra ele como se tivesse entendendo e eu concordava. Concordava mas não ouvia ele porque eu ouvia uma outra voz me desafiando a respondê-lo que era a minha voz, mas não, não era a minha voz, ou era?).
Foi quando eu levantei o queixo, olhei no olho dele e disse (dessa vez com a minha voz, tenho certeza): “Espera, fulano (nem convém dizer o nome do increu) onde foi que tu aprendeste a separar o mundo desse jeito? Tu com certeza não é artista né, e se artista é, quem foi que te deu esse título?
(a voz me dizia “tur-ban-te, tur-ban-te, turrr-baaan-teee ”, eu já tava ficando puta com a voz, tava já atrapalhando meu raciocínio), o sujeito ficou branco, branco mesmo no sentido pálido da pessoa e também branco no sentido político da palavra, fez cara de mau, mas eu já tava atuada, mandei a voz se foder, sacudi a cabeça arrumei o cabelo e cravejei:
“Se eu ando com ou sem turbante na minha cabeça, ou se eu ando com gente que usa turbante, isso não te importa, mas tu se não sabia antes, saiba agora, eu me chamo Isabela, camarada! Eu sou Isabela do Lago eu sou artista, cineclubista, educadora e lutadora e sou tudo que quero ser, porque sou líquida e estou aqui nesta setorial branca justamente porque não suporto mais esse tipo de artista que estigmatiza, lá na nossa terra a gente não tá precisando limar ninguém, pelo contrário, mal tu sabes que é justamente lá, na setorial preta, se te deres ao trabalho de ir e procurar vais encontrar o verdadeiro sentido da arte. Eu ando sim com essas senhoras porque elas são minhas amigas, companheiras, com elas me sinto acolhida, e além do mais enquanto vocês me julgavam ao longe eu os procurava, fizeram a reunião sem minha presença e tudo a julgar pelo turbante?”
Eu nem vou continuar com esse relato, pra mim vale mais a pena desatar nós e continuar relatando a vivência com artistas de terreiro, o primeiro encontro ocorreu dia 15 de de fevereiro na UFPA, estamos unidos em articulação curatorial com pesquisadores de religiões Afro-amazônicas e artistas pertencentes à comunidades de povos tradicionais de terreiros, vencendo as barreiras brancas do circuito artístico de Belém, e aguardem, porque a galera do turbante, tem visão oracular pra lá de pós-moderna, eu diria, inclusive, embreante, esse trabalho ainda vai despertar muitas vozes interiores.
Aruanda é um lugar embreante? (essa questão fica pro próximo texto).
Axé!
Isabela do Lago.
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Local: Belém, Pará, Amazônia, Brasil
Belém - PA, República Federativa do Brasil
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
solve et coagula
A Alquimia é uma ciência com origens na alta antiguidade, e foi muito difundida na Idade Média. Os caras – alquimistas juravam que eram donos de conhecimentos como a religião, medicina, magia, metalurgia e de outras ciências que hoje conhecemos separadamente, mas não sacavam nada de CARNAVAL. Tá bem... vamos lá, vou me fazer entender melhor...
Um dos principais objetivos dos mestres alquímicos era transformar o chumbo em ouro daí a origem do termo em latim solve et coagula e é evidente que isso não pode ser entendido de forma literal. Como eram detentores de vasto conhecimento em uma sociedade em que a grande maioria das pessoas era iletrada, bem sabiam que a sabedoria tem um poder transformador.
Agora pare! Pegue no bum-bum e pegue no compasso, meu bem, vamos tramar um fio de pensamento que nos faça solver o solve do solve et coagula e deglutir o coagula com mais gula: traduzindo, fica algo como "desmontar", "separar" e "juntar" ou "unir". Ou seja, solve et coagula não é só um princípio básico das transformações dos metais e da química, mas um princípio da própria transmutação da natureza do homem através do conhecimento. E foi exatamente isso que fiz pra finalmente, em 35 anos anos de existência conhecer o carnaval – porque conhecimento pra mim, é vivência, experiência direta, a ciência só vem pra enfeitar o pavão.
Me lancei ao convite de sair de destaque num carro da Embaixada do Império Pedreirense, com enredo abordando Ver-o-peso, esse carro tinha de tudo, como tem de tudo o ver- o -peso, na missão proposta, falar de magia de cultura popular das ervas que curam e trazem sorte (leia isso cantando, por favor!), criar em mim a personagem de Dona Erundina, junto as irmãs turcas encantadas (Mariana e Jarina), isso chegou perto de mim, de minha história dos meus quereres, isso é resistência popular, ôpa já gostei, topei na hora. Sem grana, como sempre fui recolhendo objetos de outros carnavais de outras pessoas, uma cabeça de uma prima, e uma roupa de ritual do terreiro de minha tia – a roupa era de fato usada pra receber Dona Erundina, guardada num baú com outras vestes ritualísticas tinha o cheiro mesmo da defumação, dos banhos de ervas e... bastante rasgada, usadíssima. Já a cabeça não combinava com nada, daí apliquei diretamente o solve et coagula naquilo tudo e me mandei pra avenida... nossa... que experiência fantástica!!!!
O carnaval de rua é ouro do povo, tanta luta, tanto brilho, bateu mesmo fundo no meu coração, me dilui completamente, certamente eu não fui a única a solver et coagular, inclusive porque não há recursos pro carnaval paraoara, as escolas são pobres, feitas por sábios e sábias alquimistas de periferia, concluo o pensamento: daqui há pouco vai entrar na avenida Marquês de Sapucaí uma escola de samba falando do estado do Pará, e vai entrar rica e linda, inclusive porque tod@s sabemos que o governo de merda desse estado, tem bases hipócritas, clientelistas e porcamente elitistas.
Isso é jogar sujo com a identidade popular, isso é jogar sujo com a expressão da cultura negra brasileira, isso é estratégia de opressão no mais alto nível de corrupção pega-se todo o trabalho de transformar o chumbo em ouro, rouba este ouro e o transforma em pó e sai espalhando por aí indevidamente até que perca totalmente o valor.
É isso aí, Império Pedreirense, você entrou na minha vida no momento certo, seguirei pro resto dos meus dias compartilhando desta magia.
Simão Jatene, não me toque, não me bula que eu danço na ponta da agulha.
Isabela do Lago.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Tinta sobre madeira: Imóvel e surda na aparência, dançando e cantando na consciência
A vocês, aqui estão três obras do conjunto da primeira série para Mulheres Líquidas, neste conjunto, duas portas e uma cadeira. Precisamos sair, depois adentrar e depois sentar, é conseqüente o esperar, mas não é exatamente “o esperar” aquilo que se espera do momento esperado. Espera-se que tenha luta. Espero que eu possa ir para a rua, quero ir pra rua, me dê passagem.
Vivo em Belém do Pará entre as chuvas e o nada. Cresci e me criei perto dos rios, tempestades e igarapés, perto da mata. De quando em quando, ainda pequena, me via sonolenta e delirante com minha mãe no congá de minha tia, entre o girar de saias coloridas e os cheiros dos banhos, dos incensos, as cantigas e batuques rasgando a madrugada, o suor e as velas, tanta cor... Pra onde eu iria com isso tudo na memória? Pra onde ir agora nessa minha terceira década de infância perdida entre asfalto, concreto e solidão?
Hoje Belém é uma cortina cenográfica localizada de costas pro rio-mar, ladeada pela favelização das comunidades e cada vez mais distante das matas onde vivem os deuses da natureza que deviam nos proteger. A mim, sobrou o exibicionismo, me pintei na imagem de muitas personagens deste mundo real-irreal-suprareal, restou-me transformar, em figuras que tenho encontrado neste ir e vir Marajó-Belém-Marajó, leia-se Concreto-encantaria-concreto, convencionei novas deusas banhadas em pigmento e solvente sobre estes objetos de madeira que encontrei na rua. A rua: quero ir pra rua, me dê passagem.
Aqui vão apenas três figuras dum percurso de três anos a observar a matéria humana, que é composta de uma sobreposição bem arranjada de vísceras, pústulas e fluidos tudo bem coberto de pelos e pele. Pelas bordas há fendas. A equação quadrática de rigor da matéria humana aparenta a pele que cobre o corpo que por dentro é vermelho e não escapa a alma, o subitem pele nada conduz ao teor existencial do corpo, então, pega um facão e te corta, homem verás teu interior. Sou mulher, não careço me cortar, para me ver por dentro, basta-me um espelho. Mas isto tudo é uma carga de realidade muito pesada e concreta, carecemos do irreal para sermos reais porque só sendo reais alcançamos o desejo de que uma situação imaginada torne-se real, isto se chama arte. Quantas de mim serão necessárias para que eu possa inundar o mundo das imagens que me são impostas com imagens que eu quero propostas? Precisarei ser líquida, ainda o suficiente para me transformar naquilo que eu mesma escolher para mim, e trasbordar, só a fluidez me dá o poder da transformação. Ainda é pouco, ainda preciso continuar. Por favor, me dê passagem, quero ir pra rua.
Isabela do Lago.
sábado, 1 de setembro de 2012
A menina feia
lápis sobre papel, desenho meu.
Saber oque é beleza. Eu queria saber, me sinto feia e má, muito má.
Não, isso não é verdade! Posso não ser bonitooona, tipo... como manda o figurino,
mas também não sou má, sou boazinha, muito, demais, ultra sangue bom.
Éh sou boazinha mas continuo poluindo os rios, consumo diariamente produtos industrializados, falo mal das pessoas, minto, ofendo, tenho preguiça,não sei rezar, bebo cerveja, fumo cigarros e ainda... melhor nem dizer tudo tá, chega.
Oque eu queria mesmo, mesmo, mesmíssimo era estar mais perto da natureza e do amor, mas me entrego a paixões mundanas diariamente. Pois é, sou uma menina feia.
Numa noite de lua como essa , costumo ficar em casa, costumo estar cansada às sextas feiras e acabo não saindo, não me divirto e penso que, se eu fosse um pássaro, seria um pássaro noturno e voaria por aí. Pra onde eu iria?
Uma menina feia, sou oque sou. Uma mulher que quer ser pássaro e tenta transmutar-se, não consegue, porque fica com cabeça de pássaro e corpo de mulher. Daí a parada complica porque pássaro gosta de voar, mas sem asas... E mulher gosta de pensar, mas com cabeça de pássaro... Ah, não é fácil levar uma vida de menina feia.
Não dá pra querer ser tudo nessa vida, mas como ser um pouco de cada coisa sendo um pouco de cada nada que cada coisa contém?
sábado, 25 de agosto de 2012
3 ou 4 passos fundamentais para que uma niña se transforme numa Mulher Líquida
Há 3 anos quando fazia um trabalho do coletivo Resistência Marajoara em Soure, Marajó e conheci a narrativa da Sucuriju, uma princesa que ajuremou-se, encantada ela transformou-se numa cobra gigantesca, hoje esta entidade paira entre o fundo do rio Paracauari e os cultos da encantaria sagrada e trabalha na linha de cura. Desde então, compreendi que a dinâmica das nossas raízes culturais estão repletas de água, e de toda a simbologia que todo este aguaceiro amazônico carrega.
Descobri também, que nossas princesas não têm absolutamente nada haver com o modelo pueril de princesinha encantada dos contos europeus, que se mantém linda e passiva à espera do príncipe encantado, e mesmo assim, isso ainda reside nas consciências, nas atitudes de muitas meninas.
Como, na altura, eu trabalhava no atendimento de mulheres em situação de risco por causa da violência doméstica, isso tudo me tocou bastante. Penso que existem problemas sociais que as mulheres precisam superar, este modelo comportamental que nos é ditado precisa ser superado, todos e todas já sabemos, mas o que fazemos para dar a volta nisso tudo?
O pensamento da cultura tradicional popular amazônida é um pensar pleno de vida e de reinício da mesma, um pensamento que não polariza o existir entre vida-morte, feio-bonito, bom-mal, e sim um solvente deste existir onde oque antes era vida-acontecimento transmuta-se em corpo, plantas, bichos, cheiros e águas, águas diversas donde brotam os seres encantados que vivem a existência média, que é um tipo de virtualidade que não estamos habituados a aceitar, a compreender, uma vez, um pajé de Soure me explicou que “os encantados não estão mortos mas tbm não estão vivos, estão flutuando”.
Pra mim isso é a coisa mais poética que já ouvi em toda a minha vida, porque, ocidentalizados que somos sofremos com uma orientação de pensamento cristão-aristotélico-platônico, mas não costumamos lembrar, ou mesmo saber, que aqui já existia outro pensar, onde a idéia de verdade não é clara, tudo muda com o tempo, como mudam as árvores, as flores, o vento, a posição do sol, o nosso corpo, nada carece de verdade absoluta, nada é fixo e imutável, até a alma dos sacerdotes e sacerdotisas sedem lugar a outra alma e isso é o pleno exercício da liberdade, aí paira a arte e seus variados códigos.
Escrevi este projeto pensando nas mulheres das comunidades de terreiros, nas mulheres marajoaras, pensando nas pessoas que carregam suas raízes apesar da forte urbanização e do afastamento da natureza. Inscrevi em todos os editais possíveis, foram-se 3 anos de solidão e quase desespero. Até que resolvi mudar, permaneci com a pintura das minhas sacerdotisas, nas portas, nas coisas que encontro no lixo, onde jaz toda a podridão da sociedade que vivemos.
Descobri que no caos da vida urbana de Belém, no distanciamento da natureza e das raízes cultuais de seu povo existem mulheres artistas que não se submetem a determinados comandos comportamentais e que reagem fazendo arte de qualidade e com um ímpeto de autonomia que merece ser observado com mais atenção –merece ser absorvido enquanto poesia líquida –líquida, no sentido da não- vulnerabilidade de quem se molda a padrões da cultura artificial de consumo da atual modernidade (tal qual as mulheres marajoaras que carregam sua cultura ancestral mesmo depois de séculos e séculos de repressão por parte da colonização branca), assim, fui em busca desta princesas encantadas que transforma-se em criaturas horrendas para defender a vida, aqui estamos e não somos lenda isso é poesia.
Comecei a margear festinhas e amigos de amigos de amigos de estudantes de arte, sempre trabalhei fora do circuito “dito” oficial de Belém, nunca tive aproximação com salões e bafafás deste meio, sempre fiz intervenções de rua e pintura em casa, mas comecei a jogar trabalhos meus nas redes, blogs e espaços possíveis onde a mídia tática me permitiu, e comecei a dialogar virtualmente com pessoas para montar este grupo, comecei a dialogar com esta galeria para pedir a sessão do espaço, eu precisava ter algo nas mãos para oferecer às pessoas, a essas artistas, a maioria não me conhecia, foi mais fácil do que eu imaginei, acreditem!
Com a entrada das meninas no grupo, tudo foi mesmo muito maluco, as origens eram diversas, os olhares eram o mais plural possível, então carecíamos de um consenso e não de uma forma de democracia, que parte de princípios dissonantes de hierarquia, mas isto aconteceu naturalmente, com o tempo e a vivência e as discussões que nos permitimos ter, o consenso, sem saber exatamente o que era o foco do projeto nos deu liberdade de atuação, eu nunca contei pra elas do meu objetivo nascido na tradicionalidade do pensar caboclo, elas só foram conhecer as portas numa das ultimas reuniões, eu só convidei pra uma coletiva e mandei um projeto que não dizia muita coisa, eu não queria ninguém se moldando a uma proposta central, eu queria mesmo a diversidade dialogando, o olhar feminino plural das Icamiabas urbanas.
E todo mundo achava que eu estava falando do Baumam, quando na realidade eu nunca o tinha lido. A partir do momento que revelei nunca ter lido, imediatamente as meninas começaram a questionar a proposta deste autor, e isso pra mim foi muito divertido, já éramos líquidas sendo livres, daí surgiu o “Líquidas sim, maleáveis não”.
Além de enfrentarmos o difícil exercício do consenso dentro do grupo, passamos a sentir necessidade dele externamente, e agora? No paradigma local da produção artística há esse consenso?
Nossa sociedade está preparada para o pensamento plural na arte?
Carecemos de estrutura mínima para a livre circulação de nossas obras (e quando falo de circulação não falo EXATAMENTE de mercado!) Podemos contar com um consenso entre galeiristas, críticos, curadores, gestores de espaços museais, imprensa, entidades da sociedade civil e público em geral? Temos esta estrutura localmente?
Prefiro acreditar que podemos chegar lá um dia, mas sinto informar que não vamos chegar lá nos acomodando e aceitando práticas panelísticas e joguinhos político-institucionais que teimam em privilegiar grupelhos de amigos e parentes e descartar toda e qualquer possibilidade do livre pensar.
Precisamos acreditar que movimentos novos e necessários podem ser criados a partir de outros movimentos.
Pra finalizar:
Acredito mesmo que o nascedouro da imagem plural não pode vir de outro lugar que não seja das manifestações da cultura popular tradicional, das nossas raízes, o cerne do ‘diverso’ na obra de arte só pode vir destas relações e que isso seja respeitado não como folclore, porque a ideia de folclore é absolutamente branca, patriarcal e opressora das tradições do povo amazônida, senão fica o Erudito pelo não DITO e a gente perde nosso direito de fruição artística para ter uma relação de ‘mercado’ com a arte.
Eu não vendo carimbo nem pato no tucupi, nem tacacá com açaí porque não tenho nenhum contrato com empresas de turismo. Eu quero outro lugar para o respeito à diversidade do olhar das Mulheres Artistas Amazônidas.
Isabela do Lago.
domingo, 10 de junho de 2012
Parênteses são sussurros e rótulos são feridas
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
A posse.

É de minha responsabilidade postar neste blog meus processos, pensamentos compositivos, há quem questione o fato de veicular imagens antes de estarem prontas. A Senhora Irene foi mesmo um amor, me ajudando a transportar essa porta enoooooorme... Sabe, gente, a solidariedade estética é assim: "quero muito ver este trabalho pronto, logo, não messo esforços pra te ajudar a fazer isso. Isso tem sido uma marca importante nesse projeto, tenho recebido muita força, muita gente tem se envolvido com meus processos criativos através de gestos solidários. Tenho sorte.
Quero mesmo é falar dessa referência nova que me apareceu, revirando baús de fotos antigas de minha mãe, re-descobri Alda Rosa(a moça de vermelho na foto, em meados de 1985),me acordou para lembranças que marcaram tanto a minha infância, os momentos felizes perto dessa prima que se foi numa quarta feira de cinzas, mas não é puro saudosismo ... É o valor que dou pra minha formação de pessoa e Alda é importante pelo temperamento que tinha, pela personalidade forte,pela postura altiva e não menos porque, no lastro tenso de marcas machistas da história da família Lago ela se firmou enquanto artista, e que artista!!! Bem, se eu for ficar aqui falando dela e das coisas que ela aprontava e do tamanho da lição de vida que ela nos deu... ah... vai faltar espaço.
O importante é que o projeto MULHERES LÍQUIDAS tem sim um cunho político-social que deve ser bem pinçado, mas quero mesmo, com essa escolha, é falar sobre uma questão estética voltada à afetividade: decisão de temperança, acho que a nova-velha porta de acapu é sob medida, tem uma textura favorável (percebi depois de passar dois dias lixando e limpando).
Bem, já falei antes sobre o convencionado fundo azul-turquesa dos olhinhos de minha Avó e da encantaria cabocla, então, saibam que na próxima porta, vai rolar uma filha de cabôca Erundina, vestida de Pomba-gira/ beeemmmm vermelhona sobre o fundo azul turquesa.
Agora preciso só de mais uma manhã de sol pra secar o veneno de cupim que enxarquei a porta, e aí posso, finalmente mergulhar nas lembranças, vou lá, no fundo da minha alma buscar essa mulher e mostrá-la a vocês.
Isabela do Lago.
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